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Entre a nuvem e o chão
O BEL1 chega a uma cidade que já procura no piso frio uma forma de atravessar o calor, e a infraestrutura necessária para manter máquinas dentro de condições térmicas rigorosas ajuda a perguntar que qualidade de vida Belém está planejando para quem já vive aqui

Por Juliano Bentes — Belém(Pará),Amazônia.
09/09/2026 - 07h00
Tem uns poucos dias que o meu namorado estava com o ventilador ligado havia tanto tempo que ele já parecia apenas empurrar de um lado para outro o mesmo ar quente. Em algum momento, ele desistiu do colchão e foi se deitar na lajota, procurando no piso uma temperatura um pouco menos insuportável; o alívio durou pouco, porque a pele continuava úmida e o suor voltou antes de o corpo terminar de secar. Foi essa cena doméstica, banal para quem vive em Belém e justamente por isso difícil de ignorar, que me fez voltar ao BEL1, centro de processamento e armazenamento de dados que a Elea pretende instalar na cidade. Nenhuma evidência disponível me permite atribuir ao empreendimento o calor de Belém, mas a sua chegada coincide com um momento em que o conforto térmico deixa de parecer um mero detalhe da vida cotidiana. Para que os servidores funcionem continuamente, a temperatura controlada e o fornecimento elétrico estável entram no projeto desde o início; dentro de casa, ainda estamos procurando no chão uma temperatura que dê para suportar.
A Elea anunciou o BEL1 no fim de junho com capacidade elétrica inicial de 7,5 megawatts e possibilidade de expansão até 100 MW, prevendo o início da operação para o segundo trimestre de 2027. O prédio deverá ficar próximo à subestação de alta tensão de Miramar, operada pela AXIA Energia, e a empresa afirma que utilizará energia renovável contratada, com um sistema fechado de refrigeração que não consome água para resfriar os equipamentos durante a operação. O contraste que me interessa começa antes de qualquer julgamento sobre o empreendimento é que para um data center, controle térmico é a condição técnica incontornável; na vida urbana, o desconforto continua sendo empurrado para dentro de casa e resolvido conforme os recursos que cada pessoa consegue mobilizar.
O calor deste setembro também tem uma conjuntura climática muito específica. No boletim de 13 de agosto, o Climate Prediction Center da NOAA registrou um El Niño em fortalecimento e estimou em mais de 90% a probabilidade de que o evento se tornasse muito forte ao longo do fim de 2026 e do início de 2027. Em junho, o meteorologista José Raimundo de Sousa, do Inmet, já explicava à Agência Belém que o fenômeno tende a reduzir as chuvas na região e favorecer temperaturas mais altas, num período em que as ilhas de calor urbanas ampliam o desconforto. O El Niño ajuda a compreender a temporada que atravessamos, mas encontra uma cidade cuja própria forma interfere na maneira como o calor se distribui.
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Jefferson Inayan de Oliveira Souto e Julia Clarinda Paiva Cohen, do Instituto de Geociências da UFPA, acompanharam a Região Metropolitana de Belém entre 2003 e 2018 e associaram a urbanização acelerada à redução da vegetação e ao aumento da temperatura da superfície, mapeando as temperaturas mais altas e a maior concentração de calor nas áreas densamente construídas. A casa que não consegue esfriar durante a noite, portanto, não é apenas uma circunstância doméstica, ela está inserida numa cidade em que o desenho urbano produz exposições térmicas diferentes.
Em junho deste ano, uma equipe liderada por Everaldo B. de Souza, do Instituto de Geociências da UFPA, publicou na Scientific Reports uma análise que amplia bastante o horizonte dessa experiência. Os pesquisadores identificaram 126 ondas de calor em Belém entre 1994 e 2023, com intensificação marcada na última década, e projetaram um futuro muito diferente conforme a trajetória global de emissões. No cenário de emissões muito altas, a frequência anual desses eventos mais que dobra entre 2050 e 2074 e, nos extremos da distribuição, a duração se aproxima de 65 dias; sob forte mitigação, o mesmo salto de duração e intensidade não aparece em relação ao clima presente. Esses cenários não correspondem a escolhas que uma prefeitura possa fazer isoladamente, mas mostram que o futuro térmico da cidade também será resultado de decisões acumuladas no presente, ao mesmo tempo em que o modo como Belém se urbaniza define como esse calor será vivido localmente.
Foi outra projeção, produzida pela CarbonPlan em colaboração com o Washington Post, que deu origem à frase repetida por aqui de que Belém seria a segunda cidade mais quente do mundo em 2050. O texto original dizia algo mais específico: que a cidade poderia enfrentar cerca de 222 dias por ano de calor ao ar livre classificado como altamente perigoso à saúde, medido por um índice de estresse térmico que incorpora umidade, radiação solar e circulação do ar à temperatura. Lido dessa maneira, o número deixa de funcionar como posição num ranking e passa a ocupar o calendário: durante boa parte do ano, a qualidade da vida urbana dependeria diretamente da capacidade de reduzir a exposição ao calor.
O poder público municipal já reconhece essa vulnerabilidade e o Plano Local de Ação Climática entregue à Prefeitura em 2025 inclui o risco de ilhas de calor entre os problemas que Belém precisa enfrentar, e neste ano começou a ser estruturado um protocolo específico de alerta e resposta ao calor extremo dentro do planejamento para o El Niño 2026-2027. O desafio é impedir que essa adaptação fique confinada a uma política ambiental paralela ao restante da cidade. Se o calor interfere na possibilidade de dormir e trabalhar, a habitabilidade térmica precisa atravessar também as decisões que transformam o território.

Essa questão encontra o BEL1 num estágio que ainda está em aberto. A reportagem publicada pelo Ponto de Pauta neste 7 de setembro, com base em manifestação apresentada pela própria Elea ao Ministério Público do Pará, informa que o empreendimento continua em planejamento, ainda não possui estudos técnicos concluídos e pediu mais 60 dias para entregar os documentos requisitados; a empresa também declarou que permanece indefinido se o licenciamento ambiental caberá ao Estado, a Belém ou a Barcarena. Ao mesmo tempo, o país organiza condições econômicas para acelerar a expansão desse setor: o Senado aprovou em 1º de setembro o Redata, regime de incentivos fiscais para data centers, e o projeto foi remetido à sanção presidencial em 4 de setembro. Quando recursos públicos ajudam a tornar novas infraestruturas digitais economicamente viáveis, a pergunta sobre como preparar climaticamente as cidades que as recebem deixa de ser um assunto lateral.
O ventilador continua ligado enquanto essas escalas se encontram e um data center só opera se o calor produzido pelas máquinas permanecer dentro de limites calculados e se a energia necessária para mantê-las funcionando puder ser fornecida com alta confiabilidade; em casa, a gente muda o ventilador de lugar e procura a parte menos quente do piso. Colocadas lado a lado, essas duas formas de lidar com o calor mostram com que precisão aprendemos a planejar estabilidade térmica quando uma atividade econômica não pode prescindir dela, enquanto para a vida urbana ainda aceitamos níveis de desconforto que cada pessoa precisa administrar conforme consegue. A pergunta sobre a quem interessa a qualidade de vida de Belém começa justamente nessa diferença de precisão.
Quando a gente deita na lajota, o chão ganha uma materialidade, um corpo que registra antes de qualquer gráfico que a temperatura já atravessou a rotina além do normal, enquanto a nuvem que o BEL1 promete sustentar depende de uma instalação física e de decisões públicas muito concretas. A sua chegada acontece quando já conhecemos com bastante antecedência um futuro em que as ondas de calor podem se tornar mais frequentes e prolongadas, num contexto em que a própria ciência mostra que as trajetórias globais de mitigação mudam sensivelmente esse horizonte. Entre a infraestrutura que planejamos para as máquinas e as condições que conseguimos garantir aos corpos, sobra uma pergunta que não pertence apenas à Elea nem se encerra no licenciamento do BEL1: que cidade estamos construindo agora para continuar sendo habitável quando nem a lajota der mais conta?
Juliano Bentes
Artista, professor, pesquisador e produtor cultural em Belém, doutor em Artes pela Universidade Federal do Pará e integrante do Movimento Cultural das Themônias.
Fontes no arquivo abaixo
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